PDF- -A experiência relatada por Roberto Rabêllo com o TEATRO - O verbo e o gesto: corporeidade e performance nas folias de reis

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Revista do Centro em Rede de Investigação em Antropologia vol.

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O verbo e o gesto: corporeidade e performance nas folias de reis The word and gesture: embodiment and performance in folias de reis Gilmar Rocha

Publisher Centro em Rede de Investigação em Antropologia Electronic version URL: http://etnografica.revues.org/4658 ISSN: 2182-2891

Printed version Date of publication: 1 octobre 2016 Number of pages: 539-564 ISSN: 0873-6561

Electronic reference Gilmar Rocha,

« O verbo e o gesto: corporeidade e performance nas folias de reis »,

Etnográfica [Online],

Online desde 27 Novembro 2016,

consultado em 28 Novembro 2016.

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O verbo e o gesto: corporeidade e performance nas folias de reis Gilmar Rocha Folias de reis são manifestações de religiosidade popular de grande importância em algumas localidades do Brasil.

Durante o ciclo natalino as folias saem em peregrinação nas áreas urbanas e rurais levando a palavra sagrada aos devotos dos Santos Reis

colocando em circulação o sistema da dádiva.

Não por acaso,

a compreensão desses grupos precatórios encontra na obra de Marcel Mauss (1872-1950) uma fonte de análise inspiradora.

Em especial o corpo,

em sua dimensão performativa,

ocupa uma centralidade simbólica nas folias,

nos deixando ver um complexo sistema de “gestos elementares da reciprocidade”.

A análise se desenvolve com base em etnografia realizada junto à folia Estrela Guia,

em suas jornadas na região de Vassouras (RJ),

PALAVRAS-CHAVE: dádiva,

The word and gesture: embodiment and performance in folias de reis    Folias de reis are popular religious manifestations which have great importance in some regions of Brazil.

During the Christmas cycle,

folias’ pilgrims start their journey in urban and rural areas conveying the sacred word to devotees of the Holy Kings

in return they receive donations,

thus putting into movement the donation system.

Not coincidentally,

the understanding of these groups finds in the work of Marcel Mauss (1872-1950) a source of inspirational analysis.

In particular,

occupies a symbolic centrality in folias,

revealing a complex system of “elementary gestures of reciprocity”.

The analysis is developed based on ethnography elaborated among a folia known as Estrela Guia,

in its pilgrimage through the city of Vassouras (RJ),

KEYWORDS: gift,

ROCHA,

Gilmar ([email protected]) – Universidade Federal Fluminense (UFF),

Brasil.

540 

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“… ‘sem a iniciativa de um gesto gracioso’,

para usarmos as palavras de Aristóteles,

nada pode existir” (Godbout 1999: 157).

O CORPO FALA

A folia chegou em visita à casa do “Seu Lelo”,

na distante Paty do Alferes (RJ),

aproximadamente a 80 quilómetros da cidade de Vassouras (RJ),

parecia ser a continuação do céu na terra,

tal era a luminosidade do dia.

O presépio estava montado na entrada da casa,

local no qual se misturavam os espaços da varanda com o da garagem.

A lateral coberta com uma proteção plástica transparente impedia a circulação do ar e evitava a entrada da poeira da rua ainda sem pavimentação.

Aquela “vitrina” transformou o lugar numa espécie de estufa.

O noticiário jornalístico da noite ratificaria a suspeita de alguns foliões: o dia 26 de dezembro de 2013 foi o mais quente do ano.

Ao longo de duas horas e quarenta minutos,

tempo marcado em meu relógio,

Embora fosse notório o forte calor do lado externo da casa,

a sensação térmica do lado de dentro ultrapassava os 40° C.

A indumentária dos foliões,

confeccionada com tecido sintético,

impedia o resfriamento pela transpiração do corpo e,

somada ao peso dos instrumentos e à posição estática e repetitiva da “ladainha” (chamada de “cantoria” pelos foliões),

contribuía para o clima sufocante.

Vários foliões passaram mal durante o rito.

Posteriormente,

me lembraria que precisou fazer uma reza bonita,

pois ficou devendo uma visita no ano anterior.

Então,

a reza desse ano teria que ser mais elaborada.

De fato,

aquela longa reza explorou detalhes da jornada dos Reis Magos em direção ao local de nascimento do menino Jesus que poucas vezes ouvi em outras visitas.

Como fiz notar em meu caderno de campo,

“foi importante ter passado por essa experiência

ela ajudou a desenvolver a percepção dos limites que o corpo enfrenta na missão”.

E mais,

a percepção de que o mito se misturava ao rito também ganhava expressão,

pois tornava claro o fato de que a performance ritual,

restaurava o drama mítico vivido pelas personagens bíblicas.

Em outras palavras,

de novo recorrendo às minhas anotações de campo,

naquele momento passei a entender “na pele” que “o sacrifício ou martírio que,

por 1 Agradeço ao mestre Antônio Venâncio o acolhimento em sua família,

e a todos os integrantes da folia Estrela Guia pela “graça” de suas companhias,

e também ao Marcus Venitius Bonato Filho,

bolsista de iniciação científica (UFF-CNPq) que dividiu comigo a “dádiva” do trabalho de campo.

Aproveito ainda para agradecer aos amigos Ana Maria Marques,

Edilberto Fonseca e Sandra Pereira Tosta a leitura atenciosa,

e aos avaliadores pelos comentários enriquecedores a este ensaio.

Os nomes dos anfitriões / devotos são fictícios e colocados entre aspas.

O VERBO E O GESTO: CORPOREIDADE E PERFORMANCE NAS FOLIAS DE REIS 

o corpo enfrenta durante a jornada serve para lembrar o martírio e o sofrimento vividos por Jesus,

José e Maria,

bem como pelos três Reis Magos,

situações semelhantes às que os Santos bíblicos viveram”.

Esse episódio,

reúne os principais elementos que formam o objeto da análise desse ensaio.

Importa destacar nesse relato,

resultado da observação participante junto à folia de reis Estrela Guia durante as jornadas de 2012 e 2013,

o significado do corpo enquanto performance verbal e gestual no curso do processo ritual.2 As jornadas,

também conhecidas como “giro”,

podem ser definidas ritualmente como um momento no qual se vive uma experiência dramática,

grávida de motivações religiosas e de disposições corporais que duram 13 dias.3 Seu início é na virada do dia 24 para o dia 25 de dezembro,

e término à meia-noite do dia 06 de janeiro,

com o rito de “fechamento”,

dia de celebração dos Santos Reis,

conforme o calendário cristão.4 Ao longo desse período,

intercalado pelo repetido movimento das “marchas”,

da “roda” e do “pouso” realizado pelas folias,5 o corpo adquire notória expressão gestual e emocional,

nos deixando ver quanto é fundamental a compreensão de sua performatividade enquanto corporeidade,

revelando-se um dos fundamentos das folias.6 Minha hipótese é que,

por trás do sistema da dádiva,

haverá uma economia simbólica dos gestos que lhe dá “corpo”.

Afinal,

“acredito firmemente que a primeira ‘linguagem’,

é expressão corporal” (1998: 75).

A Estrela Guia não foge à regra,

sendo conhecida à época como a “folia do Randolphinho”.

Randolpho Lopes Filho (1940-2011),

foi um importante e respeitado mestre folião de Massambará,

cidade na qual exerceu o cargo de presidente da Câmara dos Vereadores por dois mandatos consecutivos.

As histórias em torno de sua sabedoria e autoridade de mestre folião,

o mestre Antônio Venâncio passou a guiar a folia.

aqui penso a experiência dramática das jornadas no sentido dado por Nietzsche ao trágico enquanto modo de dizer sim à vida,

sem medo do sofrimento e da dor.

santo padroeiro do Rio de Janeiro.

para uma visão de todo o processo,

Para Csordas (1990),

a corporeidade entendida como paradigma não dualista,

portanto não dividida entre razão e emoção,

confere ao corpo a qualidade de sujeito da cultura.

Mauss,

antecipa a superação dessa dualidade,

ponto esse de discordância com Csordas,

para quem Mauss manteve a fragmentação corpo / pessoa.

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CORPO E ALMA DA RECIPROCIDADE

Não por acaso,

encontro em Marcel Mauss (1872-1950) a principal fonte de inspiração desse ensaio,

temas e objetos analisados pelo etnólogo francês,

parecem reunidos no mundo ritual das folias.

Atenção especial é dedicada ao corpo,

na medida em que assume um lugar estrutural em sua antropologia,

a exemplo do fato social total consagrado no clássico “Ensaio sobre a dádiva” (2003 [1925]).

Em estudo anterior,

salientei que o corpo “se apresenta como a inscrição fenomenológica de seu pensamento.

O corpo é a medida empírica do concreto,

o que faz do homem um ser de ‘carne e osso’,

e não uma abstração” (Rocha 2011: 79).

No ensaio “As técnicas do corpo”,

originalmente uma palestra proferida aos psicólogos em 1934 e que é para muitos o embrião da antropologia do corpo,

Mauss confere a este a qualidade de ser “o primeiro e o mais natural instrumento do homem” (2003 [1934]: 407) e,

Assim,

o corpo é tanto objeto quanto sujeito da cultura,

um conjunto de técnicas cujo significado não se reduz à ideia de instrumento,

mas atos tradicionais e eficazes que não diferem da experiência mágica,

Em outras palavras,

as técnicas corporais ou a “arte de utilizar o corpo” são o resultado de processos educativos transmitidos tradicionalmente.

Andar,

mais do que simples atos e gestos naturais,

são técnicas desenvolvidas ao longo da história,

O corpo,

é menos uma questão de biologia do que a soma desses elementos.

Mais do que um dado natural,

é o uso ou a maneira como o homem dele se serve que permite pensar o corpo como fato social total.

De resto,

Mauss adverte ainda para o fato de que a apreensão das técnicas do corpo deve ser orientada pelo tríplice ponto de vista do “homem total”.

Nas folias,

o corpo e a dádiva formam uma combinação que lembra a relação corpo e alma

em sistema de gestualidades complementares às obrigações de dar,

Essa relação será reafirmada ainda com a observação de Mauss acerca da existência de uma quarta obrigação: “o presente dado aos homens em vista dos deuses e da natureza” (2003 [1925]: 203).

Os gestos de orar,

acionados nos ritos de sacrifício e nas preces,

podem ser incorporados à dádiva e compreendidos como a sua objetificação performativa.7 7 Apesar da aparente impressão de fragmentação e inacabamento,

a obra de Mauss forma uma “totalidade” relativamente coerente e integrada,

na qual o Manual de Etnografia (Mauss 1993) apresenta afinidades com o “Esboço de uma teoria geral da magia” (Mauss e Hubert 2003 [1904])

o “Ensaio sobre a dádiva” (Mauss 2003 [1925]) deve ser visto em conjunto com o “Ensaio sobre a natureza e função do sacrifício” (Mauss e Hubert 1981 [1899]) e “A prece” (Mauss 1981 [1909]).

O mundo das ideias se alimenta da experiência concreta,

a economia se mistura à religião,

sugerindo assim uma perspectiva interacionista de explicação dos fenômenos sociais em que a ação simbólica se retroalimenta das representações sociais e vice-versa.

O VERBO E O GESTO: CORPOREIDADE E PERFORMANCE NAS FOLIAS DE REIS 

O sociólogo Alain Caillé reconheceu o caráter provisório e especulativo da quarta obrigação no “Ensaio”,

e destacou: “Alguns amigos ou comentadores nos chamaram a atenção com boas razões para o fato de que não se poderia compreender o dom sem o pedido,

o sistema do dom comportaria quatro,

o pedido e o dom que o atende,

a recepção do dom e a sua retribuição.

Note-se que é sobre a quintessência cristalizada do dom,

que deveria tratar a tese de M. Mauss” (2002: 304).

Ao aproximar oração e dádiva,

Caillé nos convida a pensar o pedido como um gesto.

Mas todo o complexo sistema de gestualidades está incompleto sem o sacrifício,

na medida em que remete para a simbólica gestual da oferta.

Portanto,

incorporadas nos atos de ofertar e de rezar,

revelam uma economia simbólica dos gestos na qual se evidencia o princípio da reciprocidade que sustenta e regulamenta todo sistema da dádiva.

Tal economia simbólica forma o que estou chamando,

numa clara referência a Durkheim e Lévi-Strauss,

de “gestos elementares da reciprocidade”.8 Mesmo que cada gesto expresse uma função social específica,

deve ser visto como parte do complexo sistema da dádiva,

no qual o verbo e o gesto se retroalimentam.

Segundo Mauss,

sociedade” (2003 [1924]: 336).

Nestes termos,

a eficácia simbólica da dádiva reside na ação inscrita nos gestos que a objetificam.9 Mauss se interessa tanto pela ação quanto pelo seu resultado.

Assim,

o ato de dar se revela tão importante quanto o que é dado,

o ato de receber quanto o que é recebido,

o ato de doar quanto o que é doado,

o ato de ofertar / sacrificar quanto o objeto sacrificado,

o ato de pedir / agradecer quanto a graça alcançada.

Então,

sob a inspiração da noção de fato social total,

constitui-se o fato privilegiado a partir do qual se pode apreender o sistema da dádiva,

bem como o “homem total” de Mauss,

sendo as folias de reis “funcionalmente” exemplares a esse propósito.11

“chama-se de reciprocidade o processo pelo qual as prestações são trocadas na modalidade da dádiva e da contradádiva”,

observam Laburthe-Tolra e Warnier (1997: 345).

Essas considerações têm como referência as folias de reis

pode-se estender tal perspectiva a outras manifestações.

o que faz dela o fundamento da vida social – ver Godbout (1999) e,

Caillé (2002),

que defende a dádiva como terceiro paradigma.

somente para reforçar a ideia de um “jeito” de corpo,

resultado de um processo fenomênico / morfológico de educação e socialização.

psíquico e sócio-histórico,

a partir de suas reflexões em “A expressão obrigatória dos sentimentos” (1981 [1921]),

“Uma categoria do espírito humano: a noção de pessoa,

a de ‘eu’ ” (2003 [1938]) e “As técnicas do corpo” (2003 [1934]).

Também Rogério Rodrigues (1997) pensa “As técnicas do corpo” como um dos ensaios basilares na antropologia de Mauss,

o que reforça a hipótese da centralidade estrutural do corpo no pensamento do etnólogo francês.

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ESTRUTURA E LIMINARIDADE

As folias de reis são algumas das mais significativas manifestações culturais de religiosidade popular do catolicismo brasileiro.

Dentre as muitas possibilidades de definição,

Carlos Rodrigues Brandão (1983) as concebe como expressão ritual de grupos precatórios (rogatórios) de devotos dos Santos Reis (os três Reis Magos),

“viajeiros” que percorrem longas jornadas entre os dias 25 de dezembro e 06 de janeiro,

promovendo graças.12 Em média as folias são compostas por cerca de 30 pessoas,

de crianças de pouca idade a idosos octogenários.

Poucas são as mulheres que realizam as jornadas.

Na maioria das vezes,

sua participação se restringe à atividade de confecção das indumentárias e,

ao preparo das refeições no dia do fechamento da jornada e durante as “festas de reis” – também conhecidas como “festas de arremate”.13 De um modo geral,

as folias apresentam grande variedade de organização,

como atestam alguns estudos regionais sobre o tema (Bitter 2008).

Na esteira das abordagens que pensam as folias de reis como fenômeno social assentado no sistema da dádiva (Brandão 1981

Bitter 2010

a expressão obrigatória dos sentimentos,

as categorias do entendimento e as técnicas corporais encontram aí significação especial.

São temas e problemas que se encontram vivos e reunidos nas folias de reis.

Os foliões,

são pessoas de origem humilde,

residentes na cidade ou em distritos próximos

se ocupam em profissões diversas,

auxiliar de serviços no comércio,

Quanto à organização,

a partir da direção do mestre folião (em outras localidades conhecido também como “embaixador”,

instrumentistas e palhaços (“gigante”,

Durante a “jornada” ou o “giro”,

observa-se na organização da folia a formação de uma espécie de comissão de frente constituída pelo mestre,

bandeireiro e instrumentistas que tocam sanfona,

Normalmente o percurso é definido com antecedência,

pois é preciso acertar os lugares de “pouso” e refeição,

mas também é comum a folia desviar-se temporariamente do percurso,

para atender algum devoto que pede uma “visita”.

quando uma folia convida outras para um encontro.

Sem exagero,

essas festas lembram o potlatch dos índios americanos.

Em 2012,

o mestre Venâncio promoveu uma grande festa de reis na qual recebeu cerca de dez folias.

Durante o encontro,

cada uma das folias se apresenta,

reza para os “reis” (como se diz comumente) e,

são convidadas a se sentar à mesa para cear.

Tais festas duram a noite inteira e só terminam quando o Sol já está alto.

O VERBO E O GESTO: CORPOREIDADE E PERFORMANCE NAS FOLIAS DE REIS 

Normalmente,

são eles os que adentram o ambiente da casa

os demais – os foliões da percussão (“bateria”) –,

permanecem sempre fora da casa,

É vedada a entrada dos palhaços nos espaços das residências e igrejas,

os palhaços representam os soldados que,

sob as ordens do rei ­Herodes,

perseguem José e Maria com o objetivo de matar o menino Jesus.14 As folias se fundamentam em torno do sagrado e do profano,

categorias objetificadas na bandeira e na máscara.

A bandeira é uma espécie de estandarte,

símbolo totêmico feito de madeira,

plástico e objetos de adorno como pisca-piscas,

e imagens de passagens bíblicas.

Por definição,

é objeto sagrado e símbolo do “fundamento” das folias

a bandeira é portadora de agência.

Conduzida na frente,

garante a proteção ao grupo dos foliões e aos devotos dos Santos Reis,

tanto no curso da marcha nas ruas,

quanto no espaço interior das casas.

Contrapondo-se à bandeira,

a máscara é o símbolo dos palhaços que,

Todas as vezes que a folia abre,

os palhaços devem pedir proteção e,

Após a reza,

Tendo permanecido do lado de fora da casa,

passam então a declamar seus versos decorados (raros são os versos de improviso) e a executar seus acrobáticos saltos mortais e as suas danças performáticas.

Esse momento é conhecido como “chula”.

Para a população,

é o momento mais esperado durante a visita de uma folia a uma residência qualquer,

pois o “chula” acontece na rua ou áreas abertas contíguas à casa.

combinando dança e performance verbal,

narram fatos extraordinários,

tecem homenagens a algumas personalidades,

fazem críticas sociais aos problemas do país,

na maioria das vezes tudo com muita graça e riso acompanhados de saltos acrobáticos.

Mas essa dualidade que estrutura a organização das folias em torno da bandeira e da máscara,

somada à sua condição viajante,

revela-se menos opositiva do que ambígua,

fazendo delas fenômenos liminares,

Muitas vezes as fronteiras são relativizadas permitindo a combinação da devoção com a carnavalização.

Presentes em vários estados da nação,

as folias têm grande relevância cultural na região centro-oeste e sudeste do país.

Para Adriana Rattes,

ex-secretária de cultura do estado do Rio de Janeiro,

as folias de reis são “um dos alicerces da cultura tradicional” fluminense (Coutinho e Nogueira 2009).

A cidade de ­Vassouras (RJ) é,

Localizada no “Vale do Café”,

a cerca de 110 quilómetros da capital fluminense,

Vassouras abriga rico acervo histórico

essa caracterização parte da experiência junto ao grupo da Estrela Guia.

Em algumas localidades os palhaços são vistos como protetores disfarçados do menino Jesus.

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e arquitetônico e intenso movimento de folias de reis durante as festividades de Natal,

momento em que as folias ganham as ruas e a atenção da população local.

É então que a cidade transforma-se em um “grande presépio”.15 PROMESSA É DÁDIVA

A folia de reis Estrela Guia é uma das mais tradicionais da cidade de Vassouras,

com mais de 40 anos de existência.

A jornada de 2013 teve um significado especial,

ao cumprir o ciclo de uma promessa.

A história da bandeira que a folia conduziu até aquele ano começou com a obrigação feita por José dos ­Santos,

devoto dos Santos Reis e antigo folião,

residente em Paty do Alferes (RJ),

que mandou produzi-la com o objetivo de saldar uma dívida.

Passados três anos,

o Sr. José dos Santos adoece e,

pede ao compadre “Randolphinho” que conclua a sua promessa.

Dois anos depois,

transfere a bandeira para o amigo e mestre folião Antônio Venâncio.

Ao longo de sete anos,

a bandeira Estrela Guia foi levada ao Santuário de Bom Jesus de Matosinhos (RJ),

para lá permanecer definitivamente na sala dos milagres.16 O processo de transmissão da bandeira na folia constitui uma importante ação simbólica por meio da qual se reafirma o sistema de reciprocidade da dádiva.

O pagamento de promessas nunca é um ato isolado e sem consequências,

aciona todo um sistema de compadrio e de ajuda mútua entre os foliões da região.

Comumente se diz que promessa é dívida,

dada a profundidade da obrigação,

A promessa constitui um compromisso entre os homens e os deuses.

A obrigação de retribuir a graça recebida,

ou a esperança de alcançá-la é o que motiva os homens a se projetarem no tempo

um dia o devoto deverá saldar a dívida com o santo.17 Ela cumpre um destino e,

por mais que à primeira vista seja o resultado de uma iniciativa ou ação individual espontânea,

termina por mobilizar um número grande de pessoas ao redor.

Como no caso da prece,

a promessa é o eco de uma instituição,

o símbolo da 15 Durante o Brasil Império,

Vassouras desenvolveu-se econômica e culturalmente,

tornando-se centro de produção cafeicultora e região de veraneio dos membros da família real e da corte.

O registro dessa opulência pode ser acompanhado no “clássico” Vassouras do brasilianista Stanley Stein (1990).

“representa a plenitude ou o pleno (sete maravilhas,

que uma promessa deverá ser paga plenamente.

Razão que levam [sic] os foliões a homenagear o santo que prometeu durante sete anos,

tanto em Folia de Reis quanto em Folias de outros santos segundo a tradição”.

Assim o mestre folião Ronalt Aguiar Santiago,

da Região dos Lagos (norte do Estado do Rio de Janeiro),

me explicou o tempo das promessas.

exemplo da quarta obrigação de que fala Mauss (2003 [1925]): em termos sociológicos,

uma forma de mediação entre os homens e os deuses.

O VERBO E O GESTO: CORPOREIDADE E PERFORMANCE NAS FOLIAS DE REIS 

fragmento de uma história de longa duração.

As folias são organizações culturais de base familiar,

não só porque mantêm a tradição através da hereditariedade (passando de pai para filho) ou porque envolvem primos,

mas também porque promovem o sentimento de família na reunião dos foliões,

por meio de relações afetivas e simbólicas de irmandade,

Essa comunidade de sentimentos favorece a socialização da promessa.

Não se caracterizam como grupos de ajuda mútua no sentido estrito do termo,

como acontece com as tabancas cabo-verdianas (Trajano Filho 2009),

mas além de propagarem a “história verdadeira”,

como me disse Sr. Antônio Venâncio,

eventualmente socorrem algum folião ou mesmo outras folias.

Os motivos que levam as pessoas a participarem das folias são diversos,

desde a sedução festiva ou a garantia de aventura na visão dos mais novos às promessas feitas e às graças obtidas referentes a um problema de saúde,

A história de promessa da bandeira Estrela Guia aponta para um conjunto de fatos importantes na estrutura e organização das folias: primeiro,

mesmo que a promessa se apresente como ação individual,

carrega uma dimensão coletiva

comumente a promes

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O verbo e o gesto: corporeidade e performance nas folias de reis

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https://www.cchla.ufpb.br/rbse/TeixeiraArt.pdf

O corpo e seus desdobramentos interativos: os jogos de si

hottopos isle23 13 24Rui pdf O corpo intencional age e se comunica por gestos O corpo se revela em gestos e sintomas Os estratos corporais entretêm com o sujeito uma profunda relação de comunicação e transformação o subjectum subordina os strata, e os substrata Jousse coloca todo esse processo de sentido pelo corpo sob o conceito ampliado de “gesto”

https://www.hottopos.com/isle23/13-24Rui.pdf

Regiane Cristina Galante - ufscarbr

ufscar br ~defmh spqmh coloq07 oficinas teatrais pdf viver, a partir das nossas capacidades inventivas e criativas Neste sentido, aponta o autor que não existe uma corporeidade homogênea e universal transferível de um corpo particular ao outro, mas cada corpo tem sua própria corporeidade, o que lhe garante sua identidade biológica (SANTIN, 1990, p 138)

https://www.ufscar.br/~defmh/spqmh/coloq07/oficinas/teatrais.pdf

UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA ESCOLA DE DANÇA E ESCOLA DE

repositorio ufba br 8080 ri bitstream ri 9548 1 TeseCom conceito de corporeidade e levou ao surgimento de novas formas de incorporação do drama Para que se possa entender como ocorreu esse processo, a pesquisa realizou um amplo mapeamento do Teatro Físico que abrangeu desde a genealogia do corpo e do gesto expressivo até a produção contemporânea do gênero

https://repositorio.ufba.br:8080/ri/bitstream/ri/9548/1/TeseComSeg.pdf

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